Museu Nacional do Azulejo em Lisboa |  MUSEUS PELO MUNDO
Museu Nacional do Azulejo em Lisboa | MUSEUS PELO MUNDO


Olá! Aqui é a Elise Spínola e estou muito feliz em inaugurar mais um quadro aqui para a IMAGINER: MUSEUS PELO MUNDO! E para a estreia, eu escolhi um Museu um pouco fora do convencional, diferente daqueles com os quais estamos acostumados, de grandes proporções como o Louvre e o Prado, por exemplo. O escolhido foi o Museu Nacional do Azulejo, em Lisboa. E eu te convido a passear comigo, não só pelo edifício ou museu em si, mas pela história desse pequeno objeto, chamado azulejo. Um dos museus mais importantes de Portugal, O Museu Nacional do Azulejo ocupa atualmente o edifício do Antigo Convento da Madre de Deus, fundado pela Rainha Leonor em 1509. Mais tarde Dom João III e Dom Pedro II empreenderam várias obras de ampliação e decoração do edifício que foi aos poucos ganhando a forma que possui ainda hoje. Após a extinção das ordens monásticas em 1834 o antigo convento foi convertido no Asilo D. Maria Pia. No início do século XX o edifício passou a ser salvaguardado pelo Museu de Arte Antiga, sendo um braço deste e com a temática do azulejo. Em 1980 o Museu do Azulejo finalmente emancipa-se, tornando-se Nacional e independente. Essas pequenas peças de barro cozido e pintadas a mão, ultrapassaram os níveis puramente utilitários e chegaram ao topo: se tornaram obras de arte. A história do azulejo se confunde com a própria história de Portugal! De origem árabe, aperfeiçoado ao longo dos séculos, ganhou identidade própria no país lusitano, revestindo palácios, igrejas e conventos. Delicadeza e sensibilidade caracterizam esses objetos que conquistaram e ainda conquistam países distantes, atravessando oceanos e evoluindo em técnica e estética. De norte a sul desse pequeno país, lá está ele, sempre presente, contando histórias, retratando personagens ou apenas adornando com seus belos padrões arabescados. Ao adentrar o Museu Nacional do Azulejo, essas peças tão cotidianas se tornam protagonistas, da exposição e do próprio edifício. Em meio a tanta informação e painéis a mostra, certas raridades podem passar desapercebidas. Portanto, ao longo do passeio indicarei 4 pontos que merecem sua total atenção, que merecem aqueles cinco minutos de pura contemplação. Logo no primeiro corredor do Museu, somos apresentados às origens mais distantes do azulejo, trazido para a Península Ibérica no século VIII pelos árabes. Amplamente difundido na Espanha, tem em Portugal suas primeiras aplicações a partir do século XIII. De início com peças geométricas e coloridas, encaixadas nos mais variados padrões, evoluiu sob influência hispano-mourisca para a técnica de corda seca e aresta produzidas em Toledo e Sevilla. A belíssima padronagem geométrica, formada sempre pela união de vários azulejos, que se repetem ao longo das superfícies, capta nosso olhar sempre com cores fortes e puras. Em Portugal, a partir do século XVI o encadeamento geométrico islâmico passou a ceder lugar a motivos europeus, com elementos vegetais, animais, sob influência gótica e renascentista. Ao final desse corredor inicial do museu descobrimos o surgimento da técnica que permitiria ao azulejo alçar novos patamares. A técnica Majólica, ou popularmente conhecida como Faiança, provinda da Itália, chega à Península Ibérica em meados do século XVI e desenvolve-se de maneira peculiar em Portugal. A técnica de manufatura resume-se basicamente em aplicar sobre a peça cerâmica, logo após sua primeira cozedura, uma camada de esmalte opaco branco. Essa camada vitrificada possibilita a utilização de pigmentos solúveis metálicos diretamente sobre ela. Após a pintura dos motivos que já haviam sido transferidos para a peça, essa é levada a cozedura novamente e só então revela suas cores: azul, verde, castanho, amarelo ou vermelho. É por essa razão que os primeiros azulejos exibiam sempre essas cores, revelando essa imagem tão conhecida de muito amarelo, azul e verde! Finalmente, ao final desse primeiro corredor que nos mostra de onde e como surgiu o Azulejo, o primeiro ponto em que você deve se deter é o Painel da Igreja de Santo André. De 5 metros de altura por 4,65 de largura, essa magnífica composição sobreviveu ao fatídico terremoto de Lisboa de 1755. No topo, apesar de parecer a um primeiro olhar serem partes perdidas do painel, trata-se na verdade de uma janela que havia nessa capela, parte da composição que retrata a Anunciação, significava a Luz do Espírito Santo que adentrava o recinto. É possível entender nesse painel, um dos poucos sobreviventes do período anterior ao terremoto que destruiu boa parte da cidade, o que de fato difere o azulejo português do resto do mundo. A integração total com a arquitetura, interagindo com o ambiente no qual estava inserido; a utilização de elementos tipicamente arquitetônicos na pintura, como pilares e frontões; a pintura em si com alto grau de conhecimento da técnica e das perspectivas; e por último, mas não menos importante, da grandiosidade a que se propunham seus artistas e patrocinadores. Na continuação da visita ficamos extasiados com a evolução da técnica de faiança, em especial, na forma como o azulejo foi utilizado para revestir paredes, pisos e até tetos. A imitação, através da pintura, de pedras preciosas nos azulejos forma padrões belíssimos. Alguns se assemelham a verdadeiras tapeçarias de cerâmica. As cores preponderantes são o amarelo e o azul… Observamos o reflexo na arte da azulejaria da presença de Portugal na Ásia. Esta frente de altar imita, claramente, tapeçaria oriental, com representação de coelhos, veados, vegetação e até mesmo de construções chinesas como o Pagode, por exemplo. O segundo ponto que exige um belo passeio, sem pressa, é a Igreja do Antigo Convento da Madre de Deus. Parte integrante do Museu, tem sua forma atual datada do século XVIII, pois a primeira versão foi destruída pelo terremoto de 1755. Na visita a essa Igreja sentimos claramente a arquitetura barroca portuguesa, na profusão de elementos, na talha dourada juntamente com os azulejos azuis e brancos – característica estética pela qual o azulejo português ganharia fama mundial. Podemos ver na Igreja a representação de histórias ao longo da nave principal e de padrões arabescados em pontos específicos do altar. É importante ser ressaltado é a possibilidade de observar o azulejo em sua aplicação na arquitetura, e como a integração das duas artes é perfeita, sendo o projeto de azulejaria pensado e estruturado especialmente para as paredes daquele edificio em específico. O dourado, o azul e o branco resultam em um visual de beleza só visto em terras lusitanas. Aproveite esse momento… Subindo ao primeiro piso e atravessando o pequeno claustro, a próxima parada é a sala do Presépio da Madre de Deus. A arte do presépio, que com o passar dos séculos se tornou algo comum e até comercial, teve no século XVII seu apogeu! O Presépio Monumental Português se assemelha ao Napolitano e transforma-se em obra escultural. Antônio Ferreira, autor desse Presépio, juntamente com Joaquim Machado de Castro posteriormente, são os grandes artistas responsáveis pelos famosos presépios portugueses. A parada e a contemplação desse conjunto de esculturas, feitas em barro e policromadas, não deixa de emocionar: por um lado devido ao número de peças, por volta de 42 e algumas com até 70 cm de altura, e por outro devido a emoção gerada pela cena. O menino Jesus como protagonista capta nossa atenção, mas ao passear o olhar pelas outras peças vamos descobrindo, a cada uma, uma emoção nova, um gesto intenso, mesmo aquele mais simples, de camponeses a reis magos. Continuamos rumo a Sala dos Arcos, com azulejos do século XVIII, de gosto barroco e rococó. É interessante observar como o azulejo aqui ganha autonomia da arquitetura, desprende-se dela e deixa de ser apenas revestimento para paredes ou pisos, mas se torna obra de arte em si, verdadeiros quadros móveis, dos mais variados temas. Arte para uma função puramente utilitária, a azulejaria ganhou alto status, ganhou independência, vida própria. Finalmente, uma dica de gosto pessoal é a Escadaria Nobre do Convento. A escadaria, que dá acesso a exposição temporária não está necessariamente na rota obrigatória do visitante, mas sugiro muito que você a visite identificando sua localização no mapa entregue na bilheteria. O desenho da azulejaria em tons de azul e branco em total sintonia com a madeira robusta da escada é singelo e é um resumo belíssimo da delicadeza dessa arte! A arte do azulejo que caminhou sem cessar, mudou suas formas, sua utilidade, e que se tornou mais do que qualquer outra arte uma expressão verdadeira de um povo, de uma terra: Portugal.

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